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Corpo em delito
A propósito de "Eclosão", exposição de Márcia Guimarães
maio 1999


Partindo do título escolhido pela artista, Eclosão, vislumbro a possibilidade de ter as retinas feridas pelos fragmentos da casca rompida e, ainda assim, poder admirar os corpos expostos numa linguagem dúbia, onde carne e essência se manifestam com tal força, provocando um desvio do eixo sensorial, quando surpreendo-me lambendo a anatomia dos motivos, respirando a atmosfera em que estão inseridos e, ainda, liquefazendo pensamentos, deixando-os correr pelo labirinto de sensações onde a sexualidade, o instinto, o sabor e o odor estão tão presentes quanto a trascendentalização. O doloroso e o solitário que envolve os corpos, um pós-mortem orgástico, consequência da entrega e, ao mesmo tempo, do distanciamen-to, aponta para a intenção de se manter radical ambiguidade.

Tecnicamente, o razoável domínio da anatomia, demonstrado por Márcia Guimarães permite a elegante transgressão cometida pela artista. Assim, o corpo é moldado à imagem e semelhante da criadora. E ela viu as criaturas: corpos que flutuam (em meio a um nada existencial ou a um descanso cósmico?) ou se revelam esculpidos numa superfície qual carne trêmula a espera do toque que a levará ao clímax.

O surrealismo assumido pela artista, tanto quanto a influência de Dalí, escapa ao comum na economia de elementos, quando Márcia trabalha toda a superfície sem exagerar na quantidade de referências, procurando expor o discurso sem ruídos em excesso, ato que me causa especial satisfação, pois a vejo muito mais próxima a Magritte, que deu ao surrealismo o status de elegância sem pedantismo. Márcia, por sua vez, tem talento bastante para afinar as cordas (ou as cerdas) na tensão exata. Suas criações apontam para uma alta qualidade técnica e temática. Não demorará muito para que ela atinja esse nível.

Léo Mittaraquis


Artista plástica expõe na Galeria SESC/Centro

maio 1999


Revestiu-se de sucesso absoluto, a exposição da artista plástica Márcia Garcia Guimarães Solera, realizada na Galeria de Arte SESC/Centro, no periodo de 13 a 31 de maio. Denominada "Eclosão", a mostra constou de 17 quadros de óleo sobre tela refletindo observações do cotidiano, sem no entanto cair no naturalismo ou na realidade mais imediata.

Autodidata, Márcia pinta desde a infância, mas foi aos 14 anos, que descobriu a proximidade com o surrealismo. Em seus trabalhos,a artista prefere observar o ser humano, tirando daí o tema para as suas telas. A solidão e suas diversas formas, são sempre uma preocupação constante de suas pinturas. O seus quadros retratam a sensibilidade e a transparência em alta escala, tomando por base corpo de mulheres brancas e negras, a imagem do idoso, o terreno árido, enfim, tudo transformado em plena sensibilidade.

Apesar de ser sergipana, Márcia Guimarães morou em São Paulo por 12 anos e foi lá que consiguiu o primeiro reconhecimento de seu talento como artista plástica, quando ganhou o prêmio "Honra ao Mérito" da Secretaria de Estado de Cultura sobre como evitar acidentes. Em nosso Estado, ela foi a vencedora do concurso para criação do logotipo da Associação Sergipana dos Artistas Plásticos (ASAP) e ganhadora de um prêmio especial no Salão dos Novos.

A abertura da exposição "Eclosão", na noite de 12 de maio foi bastante concorrida e contou com a participação de políticos, artistas plásticos, estudantes, o público em gerale a crítica especializada. Na ocasião, aconteceu a performance da bailarina Júlia Ban, em números de ballet afro. O enfoque dado por Márcia, na mostra, foi o feminino que despertou um grande interese no público, principalmente pelas formas dadas em cada trabalho. Durante o periodo de realização da exposição, várias telas da artista foram adquiridas por colecionadoraes e pessoas interessadas em artes plásticas.


Márcia Guimarães innovou a ambiente da Galeria do SESC

novembro 1999


Márcia Guimarães innovou o ambiente da Galeria do SESC quando da sua última exposição de pinturas (óleo sobre telas). Todas a paredes foram pintadas de amarelo para servirem de fundo aos poemas escritos ao longo de todo o espaço.

Ela, Márcia, "que é a mais linda de todas e de todas a mais linda" posou para a fotografia de Tanit Bezerra. Seu poema "A Rosa Negra (O Vazio)" estava nas telas, nas letras, nos cabelos e na roupa da pintora; impregnada de poesia.


Márcia Guimarães:
labirintos de sonho

2000


Márcia pinta como quem desliza nos labirintos do sonho e da fantasia.
Utilizando cores quentes e frias, compõe cenários de estranha beleza, onde os estados oníricos transportam o leitor a países imaginários, em que mitos e lendas coexistem no horizonte da irrealidade.
A motivação sobre a qual repousa a maioria de suas criações provém de um olhar indagador aos dois extremos da vida: infância e velhice, reiventados com as tintas da imaginação. Nas criações surrealistas da maioria de suas telas, a figura de uma criança, na pureza dos olhos azuis é sempre colocada em plano superior, como se a inocência lhe desse poderes de alçar-se além da miséria humana, enquanto a velhice é retratada em plano inferior, voltada para o nevoento horizonte do abandono e da solidão.
A vida e a morte, a esperança e o desencanto, a efemeridade da vida humana, a certeza do desgaste de todas as coisas pela força da passagem nas horas entrelaçam-se na obra dessa jovem artista para quem a pintura é fruto de perspectivas íntimas, de uma sensibilidade que vai além das aparências, para captar na fragilidade do cotidiano os traços de eternidade que dão sentido à existência.
Márcia não se limita ao exercício técnico da estética surrealista: seus cálices pousados em nuvens, suas rosas murchas sobre o negror da estrada, seus bebês e suas árvores de sonho remetem-nos ao universo desintegrado dos dias de hoje, no qual a arte é a única forma de libertação pela capacidade de sobrepor-se ao desequilíbrio e assim gerar a beleza que não morre."

Maria da Glória Sá Rosa
Da Associação Brasileira de Críticos de Arte.